O Perigo do Humor na Pregação

Natanael Diogo Santos[1]

À luz de uma visão ortodoxa, cresce a preocupação com a genuinidade da pregação da Palavra de Deus. Isso se deve aos inúmeros erros observados nos púlpitos da igreja brasileira e ao redor do mundo. Entre esses erros, destaca-se a ausência de uma pregação cristocêntrica. Torna-se cada vez mais perceptível a preferência, tanto por parte de quem prega quanto de quem ouve, por mensagens motivacionais nas quais o centro não é a glória de Deus em Cristo, mas o próprio homem.

Essa tendência manifesta-se na busca desenfreada por bens materiais, na mercantilização dos milagres e na judaização de muitas igrejas, que substituem a centralidade da pregação pelos símbolos e ritos do judaísmo. Em suma, muitos se assemelham aos irmãos da Galácia que abandonaram o verdadeiro evangelho para abraçar “outro evangelho” (Gl 1.6).

O abandono da fiel exposição das Escrituras é um dos efeitos do pragmatismo, cujo objetivo principal é o crescimento numérico, independentemente de esse crescimento ser ou não saudável. Em contraste, o método instituído por Deus — a pregação expositiva — promove um crescimento verdadeiro, que acontece no tempo de Deus e produz maturidade espiritual. Todavia, esse método tem sido esquecido por muitas igrejas e pregadores.

Entre os erros mencionados, um dos mais preocupantes é o uso excessivo do humor na pregação. Pode-se definir o humor como um estado de espírito expresso por meio de situações cômicas, gestos ou palavras que provocam risos.

No que tange ao humor na pregação, tal prática pode ser tão danosa quanto outros desvios doutrinários, pois, embora esses afastem o púlpito da verdade divina, o humor excessivo dilui a autoridade e seriedade do Evangelho. Não é errado que o pregador utilize o humor em suas pregações; o problema reside no uso exagerado e na utilização do humor como método para assegurar a atenção do público à Palavra. Jilton Moraes (2005, p. 136) complementa afirmando que “um pouco de humor é um excelente recurso; o sermão deve ser alegre, mas é preciso cuidado com o humor exagerado […]”.

Quando o pregador exagera e faz do humor seu método principal, em vez de ser visto como profeta do Rei, será percebido como o bobo da corte. Se o pregador abusa do método humorístico, isso pode tornar-se tão vício que logo ele começará a envolver pessoas da audiência em brincadeiras que as humilham, transformando-as em objetos de zombaria. Essa prática conduz a um abismo ainda maior, quando se empregam piadas de mau gosto e vocabulário inadequado ao contexto da pregação, que deveria ser ocupado por palavras sublimes e gloriosas, exaltando a glória de Deus.

A Palavra de Deus, por si só, não perde sua autoridade; contudo, a falta de reverência do pregador faz com que os ouvintes deixem de levar a mensagem a sério. Esse é um ponto que inquieta os fiéis à ortodoxia: o humor desmedido no ato sagrado da pregação.

Paulo expressa esse senso de responsabilidade ao afirmar: “Estive entre vocês com fraqueza, temor e muito tremor” (1Co 2.3). Alguns pregadores — não todos — perderam, ou talvez nunca tiveram, o temor e o tremor que Paulo nutria diante da tarefa de proclamar a Palavra. O temor e o tremor revelam a gravidade do assunto tratado na pregação: pecado (separação de Deus), inferno (morte eterna), sacrifício de Cristo (salvação). Nada disso é motivo de riso; transformar verdades tão sérias em piadas converte o púlpito em palco e o pregador em palhaço entretendo bodes.

Quando Paulo exorta Timóteo acerca do zelo pela pregação, declara:“Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua manifestação e pelo seu Reino, eu o exorto solenemente: pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo; repreenda, corrija, exorte com toda paciência e doutrina. Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina […] Você, porém, seja sóbrio em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério” (2Tm 4.1–5).

Aqui encontramos oito verbos no imperativo dirigidos a Timóteo com a finalidade de pregar: esteja, repreenda, corrija, exorte, seja, suporte, faça e cumpra. Entre esses verbos, não há qualquer mandamento para que o pregador seja engraçado. A base da seriedade da pregação está expressa no versículo 1: o mesmo Deus que julgará os vivos e os mortos também julgará a pregação do seu servo. Portanto, se o texto não ordena que o pregador seja cômico, o humor não deve fazer parte do ministério daqueles que proclamam a Palavra.

Charles H. Spurgeon, considerado o príncipe dos pregadores, costumava afirmar, ao subir os quinze degraus do púlpito do Tabernáculo Metropolitano, dizia acreditava e confiava inteiramente na presença do Espírito Santo. Grandes homens de Deus carregavam consigo profundo temor e tremor ao anunciar as verdades eternas.

O humor na pregação desvia o foco da seriedade da mensagem. Quando o sermão é cheio de piadas, o ouvinte tende a enxergar a vida cristã como trivialidade. É inegável que vários fatores contribuem para o aumento alarmante do número de divórcios dentro das igrejas, e certamente um deles é a pregação humorística.

Eventos e conferências de casais têm se tornado, em muitas igrejas, verdadeiras sessões de stand-up comedy. Pregadores priorizam o riso em vez de transmitir fielmente a verdade bíblica sobre o casamento. A mensagem deveria conduzir os casais à cruz de Cristo, pois somente ali se encontra o padrão de submissão e amor sacrificial estabelecido em Efésios 5.

Byron Yawn afirma que, se Paulo liderasse nossos seminários para casais, durante todo o fim de semana se ouviria apenas sobre a cruz de Cristo, “ […] tudo o que você ouviria durante o fim de semana seria a cruz de Cristo. “Sessão Um: A Cruz”. “Sessão Dois: A Cruz”. “Sessão Temática: A Cruz “. “Desjejum dos Maridos: A Cruz”. “Almoço das Esposas: A Cruz”.

Diante da cruz, não há gargalhadas, mas lágrimas de arrependimento e reflexão. Onde os casamentos se encontram longe do padrão estabelecido por Deus, perceberiam que a vida a dois é muito mais séria do que as pregações humorísticas sobre casamento atualmente anunciam.

O excesso de humor não apenas revela falta de temor, mas também demonstra falta de conteúdo bíblico e teológico. Muitos recorrem a piadas para preencher o tempo que deveria ser fruto de horas de estudo, exegese e oração. Uma pregação humorística evidencia que o pregador não se preparou adequadamente.

Outro agravante é a influência das mídias sociais. Muitos pregadores parecem mais interessados em conquistar likes, seguidores e convites do que em expor fielmente a Escritura. O preocupante é que o número de ouvintes desse tipo de pregador cresce a cada dia, evidenciando o surgimento de uma igreja que não valoriza a pregação séria — e, por consequência, não se compromete com uma vida cristã séria.

A pregação humorística é um escárnio à glória de Deus. Se a pregação existe para conduzir o ouvinte ao louvor da glória divina, o riso descontrolado no púlpito se aproxima do profano. A Criação, a Queda, a Redenção, a Consumação, o céu e o inferno são realidades demasiado sérias para serem tratadas como brincadeiras. A cruz — onde o Filho de Deus derramou Seu sangue — jamais deveria ser tema de mofa.

Tim Chester e Marcus Honeysett alertam: “[…] pregue sermões cheios de pilhérias e anedotas que entretêm seus ouvintes. […] Tudo isso tornará sua pregação popular. Todavia, carecerá do poder de Deus” (1Co 1.17–18). O que torna a pregação gloriosa não é o talento humorístico do pregador, mas o homem que se coloca diante do povo, abre a Palavra de Deus com reverência e a expõe como um homem de Deus. É assim que o Evangelho, que é o poder de Deus, manifesta o brilho da glória de Cristo na vida dos ouvintes.

O pregador e a igreja precisam separar suas posições. Não é porque o pregador deve pregar com seriedade no púlpito, sem exagero do humor, que ele não deve ser compassivo e amoroso com seus ouvintes. O pregador precisa estar consciente de que sua posição de arauto do Senhor não o torna uma pessoa distante e insensível para com a congregação. Ele pode cumprir seu ofício profético, entregando a mensagem com tom de exortação ou correção, mas o público precisa sentir que tudo é transmitido com amor e carinho para com a igreja.

Em última análise, Paulo disse a Timóteo que admoestar deve ter como objetivo o amor pelos seus ouvintes (1Tm 1.5). A verdade é necessária, mas deve vir acompanhada do amor (Ef 4.15). O pregador precisa demonstrar genuinamente o melhor de Deus para a igreja que o ouve. Caso o pregador apenas pregue, sem demonstrar amor, a Bíblia informa que essa pessoa será como o címbolo que retine ao soar (1Co 13.1). Mas quando a verdade é exposta e apresentada com amor, definitivamente não haverá abismo entre púlpito e igreja, entre pregador e irmãos. O que deve eliminar o abismo entre o púlpito e a igreja não é o humor, mas o amor do pregador, demonstrado pelo zelo pelas vidas durante a exposição da Palavra. Assim, os ouvintes verão um homem de Deus exercendo seu ofício com excelência para o bem-estar espiritual da congregação e para a glória de Deus.

 

Referência

CHESTER, Tim; HONEYSETT, Marcus. Pregação Centrada no Evangelho. Para Pregar e Dirigir Estudos Bíblicos como Deus Quer. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.

LAWSON, Steven J. Chamados para Pregar. Cumprindo o Elevador Mandato da Pregação Expositiva. Franca, SP: Defesa do Evangelho, 2024.

MORAES, Jilton. Homilética da Pesquisa ao Púlpito. São Paulo: Vida Acadêmica, 2005.

YAWN, Byron. Pregos Bem Fixados. Descubra seu Estilo de Pregação. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.

 

 

[1] É pastor Auxiliar na Assembleia de Deus em Coroatá -MA. Professor de Teologia. Escritor.