A Luz e as Trevas: Os Olhos como Lâmpada do Corpo
Texto: Mateus 6.22–23
Introdução
No Sermão do Monte, Jesus emprega metáforas precisas para revelar a condição espiritual do ser humano. Entre elas, encontra-se a declaração sobre os olhos como lâmpada do corpo (Mt 6.22–23). À primeira vista, o texto parece tratar apenas da visão física; porém, sua profundidade revela verdades espirituais sobre pureza de intenção, unidade de propósito e o foco do coração.
Este artigo apresenta uma síntese de interpretações de Russel Champlin, William MacDonald, R. C. Sproul, William Hendriksen e Hernandes Dias Lopes — para compreender o que Jesus quis ensinar ao falar de “olhos bons” e “olhos maus”.
- Os olhos como lâmpada do corpo
Jesus inicia com uma afirmação solene: “São os olhos a lâmpada do corpo.” (Mt 6.22).
Os olhos funcionam como um farol, uma janela que permite ao corpo receber luz. Hernandes Dias Lopes observa que eles podem conduzir tanto à prática do bem quanto do mal; por eles, a alma se abre para a luz ou para as trevas. Hendriksen ressalta que, quando o olho está enfermo, o corpo inteiro é dominado por escuridão, assim como a insuficiência de luz física dificulta enxergar o caminho.
Assim, Jesus revela que a visão espiritual — aquilo que escolhemos enxergar, desejar e priorizar — determina o estado interior do ser humano.
- Olhos bons: simplicidade, pureza e unidade de propósito
Para Russel Champlin, a expressão “olhos bons” remete à ideia de um olhar simples, sem duplicidade. O adjetivo não significa apenas “bondade moral”, mas unicidade, foco claro, ausência de dupla intenção.
Champlin lembra que Jesus acabara de ensinar sobre tesouros na terra e no céu. Muitos escribas e fariseus queriam servir a Deus e, simultaneamente, acumular riquezas terrenas. Essa duplicidade caracterizava olhos enfermos: olhos que veem duas imagens ao mesmo tempo, sem transparência ou firmeza de propósito.
MacDonald amplia essa interpretação ao afirmar que o “olho bom” pertence à pessoa cujos motivos são puros, que deseja sinceramente os interesses de Deus e aceita literalmente os ensinamentos de Cristo. É alguém que:
- crê nas palavras de Jesus;
- não deposita sua segurança nas riquezas;
- acumula tesouros no céu;
- possui uma vida inundada pela luz divina.
Assim, o olho bom simboliza o discípulo que vive na claridade da verdade, orientado por um único Senhor.
- Olhos maus: cobiça, duplicidade e cegueira espiritual
O “olho mau”, segundo Champlin, era entendido pelos judeus como símbolo de avareza — um olhar doente, incapaz de focar numa única direção. Trata-se de alguém espiritualmente míope, sempre dividido entre dois senhores.
Pedro descreve esse olhar corrupto: “tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado…” (2Pe 2.14).
Hernandes Dias Lopes acrescenta que os olhos maus são cheios de cobiça e ganância, impureza e lascívia. Em vez de contemplar a beleza da criação para glorificar Deus, cobiçam o belo para satisfazer desejos pecaminosos.
MacDonald afirma que o “olho mau” pertence à pessoa que “tenta viver para os dois mundos”. Ela deseja os tesouros do céu, mas se recusa a abrir mão dos tesouros da terra — exatamente o caso dos fariseus. Isso produz falta de direção, confusão, trevas.
E Jesus adverte: “Caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!”
Aqui está um alerta profundo: quando alguém conhece a verdade de Cristo, mas escolhe ignorá-la, transforma luz em trevas — uma forma severa de cegueira espiritual. Sproul observa que Jesus faz a mesma pergunta que fez na metáfora do tesouro: o que há dentro de nossa alma?
- A conclusão solene de Jesus: trevas internas e cegueira profunda
A advertência final é dramática: se aquilo que o indivíduo considera “luz” está corrompido, então as trevas dentro dele são densas. Hernandes Dias Lopes compara essa condição ao cego que, embora tenha olhos, não possui luz — tropeça, não sabe onde está e vive envolto em escuridão.
Charles Spurgeon reforça essa ideia com severidade: se nossa religião nos leva ao pecado, se nossa fé é presunção, nosso zelo é egoísmo, nossa oração é mera formalidade, e nossa esperança uma ilusão, então as trevas são tão grandes que até o Senhor se espanta delas.
Trata-se, portanto, não de ignorância inocente, mas de trevas cultivadas, alimentadas pela recusa em obedecer à verdade conhecida.
Conclusão: Como são os seus olhos?
A metáfora dos olhos aponta para o centro da vida espiritual: o foco do coração.
- Olho bom: simples, puro, direcionado totalmente a Deus; produz luz, clareza e vida.
- Olho mau: dividido, cobiçoso, avarento, impuro; produz trevas, confusão e cegueira.
Jesus ensina que somente a unidade de propósito e a pureza de intenção mantêm nosso ser interior iluminado pela presença de Deus.
A pergunta final é inevitável:
Querido pastor, como estão os seus olhos?
Um pastor de “olho bom” é aquele cujo foco está totalmente em Cristo. É íntegro, sem duplicidade, sem interesses divididos, sem agenda paralela.
Pastores de “olhos bons” iluminam suas igrejas. Sua visão clara, centrada no evangelho, traz luz ao rebanho, direção às famílias e segurança espiritual aos que os seguem. Onde há um pastor de olho bom, há luz — porque Deus encontra um vaso limpo para refletir Sua glória.
Quando o olhar do pastor se contamina por cobiça, vaidade, ganho desonesto, necessidade de aplauso, desejo de poder ou busca por reconhecimento, suas trevas pessoais se tornam as trevas do rebanho. Um pastor pode continuar pregando, orando e liderando — mas se os seus olhos estiverem voltados para os tesouros da terra, sua luz se tornará escuridão.
A maior necessidade de uma igreja não é um pastor talentoso, eloquente ou influente, mas um pastor de olhos bons — homens cuja visão está fixa em Cristo, cujos propósitos são puros, e cujo coração não se divide entre o céu e a terra.
O que você tem escolhido ver, desejar, buscar?
Qual é o seu tesouro, e a quem você serve?
Pois, se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será luminoso — mas, se forem maus, que grandes trevas serão.
Pr. Raposo
