O DIA EM QUE O ESTÁDIO DO MARACANÃ QUASE VEIO ABAIXO!

Um Pentecostes que marcou a história do Brasil

 

Uma onda do Pentecostes varreu nosso País nos anos da década 60, prosseguindo anos adiante. Crianças, adolescentes, jovens – estes, especialmente -, adultos e velhos foram batizados com o Espírito Santo. Glória a Deus!

A Assembleia de Deus no Brasil estava em franco crescimento e desenvolvimento. Por todo o território nacional o Evangelho espalhou-se; assim, casas de oração, templos e outros espaços foram erguidos. Não faltaram as orações dos justos, a contribuição generosa dos santos de Deus e de homens e mulheres que, unidos a seus líderes, como verdadeiros cooperadores estenderam suas mãos ao trabalho, dia e noite ininterruptos, muitos deles sem esperar recompensa alguma de ordem financeira, senão aquela que vem do Senhor!

A maravilhosa Palavra de Deus nesse sentido é clara quando manda: “Alarga o espaço da tua tenda; estenda-se o toldo da tua habitação, e não o impeças; alonga as tuas cordas e firma bem as tuas estacas” (Is 54.2). Assim sendo, a execução de tais tarefas cumpre a todos quantos foram chamados para participarem do Reino de Deus aqui na terra, devendo, assim, servir ao Senhor com alegria (Sl 100.2b), cooperando com o evangelho (Fp 1.5), na defesa e confirmação evangelho (Fp 1.7) desenvolvendo a salvação (Fp 2.12) mediante a santificação (Rm 5.1,2)) como membros e cooperadores da Igreja que um dia estará com o Senhor Jesus e com Ele reinará eternamente.

Louvo a Deus por ter feito parte da geração que foi encaminhada para bem trilhar os caminhos do Senhor, da geração que foi ensinada, edificada em Jesus; da geração que aprendeu com os mestres, não os mestres das grandes universidades já existentes nesse tempo, mas da geração de homens simples, a geração de homens e mulheres que de dia estavam na roça, preparando a terra para semeadura ou colhendo os frutos provenientes do seu trabalho. À noite, essa geração de homens indoutos e incultos estava no templo orando, cantando, ensinando a Palavra, pregando a Palavra, vivendo a Palavra, contribuindo com largueza para a expansão da Igreja do Senhor Jesus. A esses homens me filiei, e deles guardo ainda hoje profunda saudade, ciente de que muitos deixaram filhos que abençoaram o ministério pastoral do seu pai e agora fazem parte da História das Assembleias de Deus no Maranhão, Brasil e fora dele. É um sentimento de profunda

 

alegria, impossível de ser descrito com maior precisão, pois as palavras tornam-se insuficientes para relatar essas maravilhosas experiências. A Deus seja glória por tudo!

Então, o que aconteceu no dia em que o Maracanã quase veio abaixo?

A resposta a essa indagação comportaria longa narrativa, mas tentaremos abreviá-la nesse espaço, dizendo que, naqueles dias, a igreja na sua caminhada terrena não perdeu tempo, avançou prosseguindo na sua peleja, visando a alcançar o prêmio (Fp 3.12-14). Naquele dia aconteceu a apoteose de uma grande festa com bonita celebração: A Oitava Conferência Mundial Pentecostal!

Ainda nos anos da década 60, em sua segunda metade, as Assembleias de Deus no Brasil, durante três anos, prepararam-se para sediar a Oitava Conferência Mundial Pentecostal. Essa seria a primeira vez, o evento realizou-se na cidade do Rio de Janeiro, de 18 a 23 de julho de 1967. Tendo como tema “O Espírito Santo glorificando a Cristo”, milhares de brasileiros e pentecostais de todo o mundo reuniram-se para louvarem ao Senhor e pregarem a Palavra de Deus, na unção do Espírito Santo.

A semana fora marcada por reuniões plenárias, nas quais foram ministrados vários temas que deram ênfase à pessoa do Espírito Santo. O Maracanãzinho esteve sempre lotado na maioria dessas reuniões, chegando a ter, num desses dias, 40 mil pessoas; os crentes não queriam perder as mensagens vivas, vibrantes, e, enquanto isso, segundo relato do saudoso pastor Emílio Conde, “o ambiente era de alegria, entusiasmo e louvor”.

Os ministrantes da Palavra eram homens de Deus vindos de várias nações do mundo: Thomas Zimmerman, o presidente da Conferência, apresentou a mensagem do primeiro dia, seguido nos dias imediatos pelos representantes da Austrália, África do Sul, Coréia do Sul, Ásia Oriental, México, Finlândia, Bolívia, América do Norte, Canadá, Noruega e, como não podia faltar, o Brasil, cujo representante e mensageiro foi o querido e inesquecível pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos, de saudosa memória. Ele pregou discorrendo sobre o tema “O Espírito Santo glorificando a Cristo como Médico”

Amplas reportagens e outros interessantes escritos deram realce a esse grande acontecimento.  O  Mensageiro  da  Paz,  e  mais  tarde,  o  livro intitulado “O Espírito Santo glorificando a Cristo” destacaram a Oitava Conferência Mundial Pentecostal realizada no Brasil, pontuando-a como “a maior, a mais expressiva, a mais entusiasta e a mais vibrante de todas as Conferências até então realizadas”.

 

O momento final desse majestoso evento, a grande apoteose, ficou reservado para a tarde do dia 23 de julho de 1967. Era o encerramento da 89 Conferência Mundial Pentecostal! As reuniões plenárias haviam acontecido no Maracanãzinho. Agora, o encerramento seria no Estádio do Maracanã com a presença de 150 mil pessoas. Segundo o relato de muitos irmãos, outros milhares de crentes ficaram do lado de fora do maior estádio de futebol do mundo, também ansiosos para ao menos ouvirem o que iria acontecer lá dentro.

Mas o que aconteceu no Maracanã, na tarde de 23 de julho de 1967?

Na verdade, na tarde daquele dia a cidade do Rio de Janeiro tomou conhecimento de que, no Estádio do Maracanã, não estava acontecendo uma partida entre o Brasil e Argentina, considerada um dos clássicos do futebol mundial. Aconteceu, sim, a manifestação da glória de Deus em meio a um turbilhão de glórias e aleluias cheios de gozo. Era intensa essa manifestação do poder do Alto, com crentes sendo batizados no Espírito Santo, falando línguas estranhas, enquanto outros estavam sendo renovados e preciosas almas rendiam-se aos pés do Senhor Jesus!

Relata Emílio Conde em “Anais da Oitava Conferência Mundial Pentecostal”, editado pela CPAD (págs. 27, 28 e 30): “O BRASIL PENTECOSTAL não decepcionou as Delegações das várias nações que esperavam assistir à maior reunião Pentecostal da história moderna. O progresso do Movimento Pentecostal no Brasil, suas atividades e agressividade, no bom sentido, já transpôs as fronteiras do Brasil, despertando invulgar interesse em todo o mundo.”

“Essa circunstância transferiu para o Movimento Pentecostal que opera no Brasil a responsabilidade de apresentar a todos quantos comparecessem à Oitava Conferência Mundial Pentecostal não apenas palavras, mas fatos que atestassem o testemunho que sempre demos acerca das atividades e desenvolvimento do Movimento Pentecostal.”

“O encerramento da Oitava Conferência Mundial Pentecostal, na tarde do dia 23 de julho, no Estádio do Maracanã, correspondeu plenamente à expectativa de cento e cinquenta mil pessoas que assistiram à magnífica e inspiradora reunião que deu por terminada a Oitava Conferência.”

“O desfile das bandeiras das Nações, no imenso tapete verde do Estádio, formado pelo gramado, impressionou a assistência que poucas vezes tem oportunidade de ver

 

tantas e tão variado número de Bandeiras em movimento, desfraldadas por dezenas de jovens em marcha ritmada.”

“A temperatura da tarde de 23 de julho, a mais baixa do ano, impediu algumas pessoas de irem ao Maracanã, porém não conseguiu arrefecer o entusiasmo e vibração da multidão que ali compareceu, apesar da ameaça de chuva.”

“Mas o que desejamos destacar aqui é o ponto mais importante da reunião de encerramento da Conferência. Todos aguardavam o momento de ouvir a mensagem da Palavra de Deus, cujo tema “O ESPÍRITO SANTO TRASLADANDO A IGREJA”, a todos interessou. O pastor Alexander Tee, da Igreja Elim da Inglaterra, certamente orou muito ao Senhor antes de subir ao púlpito. A mensagem que transmitiu à imensa assistência foi uma inspiração para todos.”

“O pregador deu ênfase ao arrebatamento da Igreja e apelou para que todos se preparassem para irem com Jesus, quando a Igreja fosse trasladada.”

“Emoção, vibração e entusiasmo perpassaram pela imensidão do Estádio do Maracanã, dominando inteiramente a multidão que agitava milhares de lenços e bandeiras, formando um espetáculo deslumbrante, e inesquecível.”

Durante os dias desse acontecimento, a Oitava Conferência contou com a presença de delegações de vários Estados e de outras nações, algumas das quais já foram mencionadas aqui. O Maranhão se fez representar naquele magno conclave espiritual. Para isso, algo de inusitado aconteceu: O pastor Estevam Ângelo de Souza reuniu vários obreiros da convenção maranhense e irmãos da Assembleia de Deus em São Luís e, em comum acordo com eles, fretou um avião da empresa aérea Paraense, com voo de São Luís direto à cidade do Rio de Janeiro. Quase que na última hora de completar a lotação da aeronave, alguns pastores encontravam-se em dificuldade, o dinheiro não estava dando, pelo que outros irmãos que possuíam mais recursos financeiros passaram a ajudar esses obreiros. Recordo que um dele foi o saudoso pastor Otaviano Reis. Quanta alegria na face desse homem de Deus ficou estampada quando ele conseguiu completar o valor da sua passagem.

Assim, havia regozijo contagiante nos que foram, enquanto muitos irmãos daquela outra banda do Brasil ficaram surpresos e maravilhados com a caravana maranhense e pelo que Deus fez, a fim de que também participassem da Conferência Mundial Pentecostal. Ao retornar do Rio de Janeiro, a comitiva foi saudada no aeroporto

 

de São Luís, um ônibus fretado conduziu esses irmãos até o Templo Central. No caminho, cada um queria contar sua história, relatar o que viu; cada um estampava no rosto uma indizível alegria.

O pastor Raimundo Ferreira Sobrinho, quieto em seu assento, limitava-se apenas a acenar com a cabeça, concordando com o relato de seus colegas. Pastor Paulo Pereira Rêgo e outros irmãos foram mais enfáticos, ao afirmarem que o Estádio do Maracanã foi sacudido por um trovão de aleluias e glórias a Deus, ao momento em que, finda a pregação da mensagem daquela tarde, o saudoso pastor e cantor Matheus Iensen, tocando o seu acordeom, cantou o último hino da festa de encerramento da Oitava Conferência Mundial Pentecostal: “Está chegando a hora de partir/Prepara-te oh igreja para subir/Medita sempre firme em oração/É tempo de real consagração/Jesus em breve vem do céu/Em glória, majestade e poder/Medita oh igreja de Jesus/Que dia glorioso há de ser”.

Esses pastores e outros irmãos relataram que enquanto Matheus cantava esse hino, e findado o seu cântico, todo o Estádio do Maracanã parecia estar sendo sacudido. Sim, tomado e abalado por uma indizível alegria; toda a multidão que lotou o maior estádio do mundo foi envolvida por uma atmosfera celestial. Era o Espírito Santo glorificando a Cristo!!!

Não pude participar da Conferência; nesse tempo eu ainda não ganhava dinheiro, e meu pai não possuía condições de arcar com mais uma passagem de avião para a cidade do Rio de Janeiro. Descrevi aqui tão somente o que me relataram, uma vez que tais narrativas me deixaram maravilhado. Não participei dessa grandiosa festa, mas ainda hoje sinto como se eu tivesse assistido. Não me contaram metade. A Oitava Conferência Mundial Pentecostal, no entanto, permanece viva na história do movimento pentecostal brasileiro como a maior festa de todos os tempos. Imaginemos, então, como será a maior de todas essas festas, não no Maracanãzinho ou no Maracanã, mas no Céu. Ela não terá fim!

Samuel Batista de Souza

Diácono da Assembleia de Deus em São Luís – MA.